Fim da linha pra esse blog.
Nasce outro neste inverno.
Epiléxica
Consistency is the last refuge of the unimaginative. (Oscar Wilde)
sábado, 23 de junho de 2012
domingo, 27 de novembro de 2011
Outra antiga
essa de 23 de julho de 2006.
Bloqueio
sete barbas sete selos
em guarda na boca da tecla
a tela ainda vazia
a língua não alitera
espaço enter e nada
sugere alguma poesia
sete cores sete notas
nota zero em sete tempos
cor alguma nessa noite
tema escuro e invisível
sete vidas em nenhuma
um poema disponível
sete nós sete ninguéns
que se escrevam sós em rima
sete tragos nada leva
a letra pra tela vazia
trova a poesia o luto
de esperar mais um dia
Bloqueio
sete barbas sete selos
em guarda na boca da tecla
a tela ainda vazia
a língua não alitera
espaço enter e nada
sugere alguma poesia
sete cores sete notas
nota zero em sete tempos
cor alguma nessa noite
tema escuro e invisível
sete vidas em nenhuma
um poema disponível
sete nós sete ninguéns
que se escrevam sós em rima
sete tragos nada leva
a letra pra tela vazia
trova a poesia o luto
de esperar mais um dia
Uma antiga...
de 8 de maio de 2007, segundo consta aqui.
Cagaço
Cagaço
Era um homem solitário, de umas regras acirradas que moldavam os seus dias: a primeira, não chorar – o avô já lhe dizia que o valor de uma pessoa é o rosto inviolado. A segunda, se arrumar todo dia de manhã para inúteis companhias, para que a solidão que ocultava como um prêmio fosse mais silenciosa e discreta para os outros.
Seu hobby era começar tudo aquilo que podia: na primeira semente, como em si, via toda a intensidade do tronco, desde a vontade de crescer quanto a claustrofobia. E a histeria, e tantas outras ias que ele estudava todo dia nos livros de psicologia que ficava tudo um ia de pretérito imperfeito. Em primeira pessoa, do singular.
Falava tanto que nem sei, já que a boca era uma porta que podia escoar todas suas teorias sobre as coisas que vivia – fatos, risos, trocas, dias – e que tanto temia sentir.
Um dia, escutou um “ou”. Foi mais um chamado amigo, mas a mania de pensar catalogou-o em conjunção: ou. O que antes foi verdade, soou como uma opção, já que o “ou” que escutou desenhou-lhe na cabeça uma interrogação: “Ou que? O que pode existir além disso que eu vivo; é ou isso ou o que?”
E de repente as palavras que ele comia digeriram-se em forma que era quase uma poesia, se não fosse fala em prosa. E tudo foi pro papel, bem naquela hora exata em que o ia que pensava sobre o ser que sempre fora cansou o seu pensamento de tanto catalogar toda possibilidade para a interrogação, e ele disse o eu vou.
Seu hobby era começar tudo aquilo que podia: na primeira semente, como em si, via toda a intensidade do tronco, desde a vontade de crescer quanto a claustrofobia. E a histeria, e tantas outras ias que ele estudava todo dia nos livros de psicologia que ficava tudo um ia de pretérito imperfeito. Em primeira pessoa, do singular.
Falava tanto que nem sei, já que a boca era uma porta que podia escoar todas suas teorias sobre as coisas que vivia – fatos, risos, trocas, dias – e que tanto temia sentir.
Um dia, escutou um “ou”. Foi mais um chamado amigo, mas a mania de pensar catalogou-o em conjunção: ou. O que antes foi verdade, soou como uma opção, já que o “ou” que escutou desenhou-lhe na cabeça uma interrogação: “Ou que? O que pode existir além disso que eu vivo; é ou isso ou o que?”
E de repente as palavras que ele comia digeriram-se em forma que era quase uma poesia, se não fosse fala em prosa. E tudo foi pro papel, bem naquela hora exata em que o ia que pensava sobre o ser que sempre fora cansou o seu pensamento de tanto catalogar toda possibilidade para a interrogação, e ele disse o eu vou.
Se é que foi, conto depois.
sábado, 26 de novembro de 2011
Manhã de aniversário
o dia brota
o sol que arde
os passarinhos
um dia eu nasço
um eu se monta
e eu acredito
meio da tarde
cômodo tempo
me dá preguiça
o tempo passa
a vida cresce
se cristaliza
o sol se põe
a noite é clara
a lua mingua
o rosto enruga
a carne afrouxa
culpas da vida
é madrugada
sumiu a lua
sono forçado
a morte chega
corpo desmonta
lego de átomo
relógios param
mas terra gira
pessoas nascem
pessoas correm
pessoas trepam
pessoas morrem
o mundo é,
o ego some.
o sol que arde
os passarinhos
um dia eu nasço
um eu se monta
e eu acredito
meio da tarde
cômodo tempo
me dá preguiça
o tempo passa
a vida cresce
se cristaliza
o sol se põe
a noite é clara
a lua mingua
o rosto enruga
a carne afrouxa
culpas da vida
é madrugada
sumiu a lua
sono forçado
a morte chega
corpo desmonta
lego de átomo
relógios param
mas terra gira
pessoas nascem
pessoas correm
pessoas trepam
pessoas morrem
o mundo é,
o ego some.
sábado, 24 de setembro de 2011
Primeiros dias de primavera

First days of spring -- the sky
is bright blue, the sun huge and warm.
Everything's turning green.
Carrying my monk's bowl, I walk to the village
to beg for my daily meal.
The children spot me at the temple gate
and happily crowd around,
dragging to my arms till I stop.
I put my bowl on a white rock,
hang my bag on a branch.
First we braid grasses and play tug-of-war,
then we take turns singing and keeping a kick-ball in the air:
I kick the ball and they sing, they kick and I sing.
Time is forgotten, the hours fly.
People passing by point at me and laugh:
"Why are you acting like such a fool?"
I nod my head and don't answer.
I could say something, but why?
Do you want to know what's in my heart?
From the beginning of time: just this! just this!
(Ryokan, poeta zen japonês.)
domingo, 4 de setembro de 2011
Pó compacto
A poeira das coisas gastas
se compacta em outro formato:
nada se perde, e não há
raiva ou tédio
nem antecipação de saudade
nem julgamento dos fatos
- só a serenidade
de saber-se real
(provisória realidade).
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
domingo, 5 de junho de 2011
A segunda Agda
"Porque posso ser muita coisa para te contentar. Posso chegar ao limite do ovo, ser lisa e acetinada, e ainda assim desejar, digamos, ter a ponta quadrada. Por que é preciso morrer morte maldita? eu te prometo, Senhor, que sempre vou desejar ser outra, que vou sofrer ansiedade a vida inteira ainda que me faças rainha, rameira ou jardineiro, que sendo rainha tenho que escutar as ideias dos homens, coisa muito enfadonha, e por isso vou desejar existir onde os homens não falam, e sendo rameira vou desejar os ministros da rainha e sendo jardineiro vou querer deixar a terra para ser pescador. Então não é certo que nunca serei Agda-contente? Que podes acreditar em mim, Agda dilacerada ainda que ela mesma se faça demônio ou serafim?"
(Hilda Hilst)
(Hilda Hilst)
quinta-feira, 24 de março de 2011
Vida Adulta I
Rubi:
Por que não se aproxima?
Fica aí,
fóssil de memória, joia adolescente.
Pérola:
Não gosto de você.
Parece que te faltam partes.
Rubi:
Que partes?
Pérola:
Membros fantasmas.
Avermelhou de estancar o sangue e finge que dor é dança.
Sou pedra preciosa viva e a mim você não engana:
sua carne já foi cortada.
Rubi:
Umas pedras adultas são divididas,
outras, amputadas
outras, o mundo lapida.
As mais jovens - como você, que cresce,
são contidas pela falta de espaço:
o mundo não tem lugar para todos os os pedaços.
Pérola:
Sinto em você o vazio do que era.
Rubi:
E eu, em você, do que poderia ter sido.
Não somos todos vazios?
Pérola:
Mas em você é um vácuo
que puxa tudo para dentro,
como se o centro encolhesse
para um núcleo escondido,
distante das periferias físicas
que brilham vermelho e bonito.
E eu, que cresço, me contenho,
enquanto você se exibe
para ser admirada.
Rubi:
Mas todos querem ser vistos,
necessário jogo do espelho.
Mesmo você, que precisou
que eu entendesse sua dor
para nela acreditar
(... a insegurança do mar).
Mas, diga:
por acaso sou muito diferente
do que é uma mulher, uma amiga
ou uma coisa viva qualquer?
Pérola:
Não.
Rubi:
Cobrar autenticidade de tudo é coisa de adolescência
que não exige Verdade do mundo,
mas parecença.
Nós duas somos pedras orgânicas
- eu fruto da Terra, você filha do sal:
as duas moldadas pelo tempo
(uma para fora,
outra para dentro).
Por que não se aproxima?
Fica aí,
fóssil de memória, joia adolescente.
Pérola:
Não gosto de você.
Parece que te faltam partes.
Rubi:
Que partes?
Pérola:
Membros fantasmas.
Avermelhou de estancar o sangue e finge que dor é dança.
Sou pedra preciosa viva e a mim você não engana:
sua carne já foi cortada.
Rubi:
Umas pedras adultas são divididas,
outras, amputadas
outras, o mundo lapida.
As mais jovens - como você, que cresce,
são contidas pela falta de espaço:
o mundo não tem lugar para todos os os pedaços.
Pérola:
Sinto em você o vazio do que era.
Rubi:
E eu, em você, do que poderia ter sido.
Não somos todos vazios?
Pérola:
Mas em você é um vácuo
que puxa tudo para dentro,
como se o centro encolhesse
para um núcleo escondido,
distante das periferias físicas
que brilham vermelho e bonito.
E eu, que cresço, me contenho,
enquanto você se exibe
para ser admirada.
Rubi:
Mas todos querem ser vistos,
necessário jogo do espelho.
Mesmo você, que precisou
que eu entendesse sua dor
para nela acreditar
(... a insegurança do mar).
Mas, diga:
por acaso sou muito diferente
do que é uma mulher, uma amiga
ou uma coisa viva qualquer?
Pérola:
Não.
Rubi:
Cobrar autenticidade de tudo é coisa de adolescência
que não exige Verdade do mundo,
mas parecença.
Nós duas somos pedras orgânicas
- eu fruto da Terra, você filha do sal:
as duas moldadas pelo tempo
(uma para fora,
outra para dentro).
Vida Adulta II
vivo em uma ampulheta
que me bombardeia a cabeça
com a poeira do tempo
fóssil de mim mesma
a cada final de dia
e a cabeça, uma ilha
nas dunas móveis no vento.
sentimento molha a terra
moldo o barro no divã:
apaguei a fogueira da noite
e vim cozinhar aqui dentro.
... tantos eus que nem me lembro.
e hoje, mudar um mundo
que já esculpiu minha vontade -
bendito silêncio das almas
pacificadas pela idade.
(barro moldado em vaso.)
respeito consagrado
ao santíssimo cruzamento
entre este tempo
e este espaço.
que me bombardeia a cabeça
com a poeira do tempo
fóssil de mim mesma
a cada final de dia
e a cabeça, uma ilha
nas dunas móveis no vento.
sentimento molha a terra
moldo o barro no divã:
apaguei a fogueira da noite
e vim cozinhar aqui dentro.
... tantos eus que nem me lembro.
e hoje, mudar um mundo
que já esculpiu minha vontade -
bendito silêncio das almas
pacificadas pela idade.
(barro moldado em vaso.)
respeito consagrado
ao santíssimo cruzamento
entre este tempo
e este espaço.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Da areia da ampulheta
Escrever liberta mas consome,
puxa o olhar, do mundo para dentro.
Ficções inúteis:
a realidade continua sendo.
O sol nasce e voa
os ponteiros voltam
a hora do almoço
cai a tarde
ouço a chave
um beijo
vem a noite
... e os dias se esvaem em um texto.
O tempo segue, rio das coisas,
enquanto a ilha grita para o mar
- faminta de contato e esquecida do fato
de que ele acontece na vida,
não no ato de criar.
puxa o olhar, do mundo para dentro.
Ficções inúteis:
a realidade continua sendo.
O sol nasce e voa
os ponteiros voltam
a hora do almoço
cai a tarde
ouço a chave
um beijo
vem a noite
... e os dias se esvaem em um texto.
O tempo segue, rio das coisas,
enquanto a ilha grita para o mar
- faminta de contato e esquecida do fato
de que ele acontece na vida,
não no ato de criar.
domingo, 28 de novembro de 2010
True Blood II

... e a bizavó inventou pra avó uma história colorida
para embalar as mil noites da idílica infância antiga.
A avó gostou da história e fez da sua um mar de rosas
inundando de fantasia a juventude da filha...
... que, quando ficou adulta, viu as mentiras da cor
mas ainda sonhou com o amor nas mil noites sem saída
até que ele se evaporasse em cheiro de nostalgia:
lamentou o preto e branco para o resto da sua vida
e não soube como contar história nenhuma para a filha...
... que foi quem rompeu o ciclo e decidiu não ter filhos:
parou de inventar cor à noite e operou a miopia
pra ver um mundo real melhor que qualquer história
e contar para os sobrinhos nas visitas à família.
domingo, 21 de novembro de 2010
Atemporal
Eu te amo como os seres com mente se amam
mas também com amor de mamífero, de cabra e tamanduá.
Te amo como os pássaros mergulhando no vento,
nas reticências escuras dos tempos,
antes de um eu existir -
com o eros pré-amoroso dos répteis e a fúria fria dos dinossauros
que perdem tempo se matando sem saber que o mundo vai explodir.
Te amo em eras glaciais,
em desastres naturais
e na areia da praia antes de você nascer.
Te amo como os peixes na substância comum das águas,
como os pólipos, os corais, as algas
com o amor que a esponja tem pelo mar
e as plantas pela atmosfera.
Te amo em todas as histórias
em cada éon e era,
com o contágio inevitável dos virus
e a matéria reunida de todas as bactérias.
Te amo no microscópio, meus elétrons e seus prótons.
Te amo cosmogonia,
Eros órfico, Big Bang:
O meu amor antigo é gritado
no chuvisco das tevês.
Te amo além dos limites da ciência
e dos sonhos que não são lembrados.
Te amo na minha pressão sanguínea
e na sua pele invadindo minhas células olfativas.
No buraco vazio do peito,
no saco cheio da vida,
na voz que sai da barriga.
Te amo na realidade da gente: sua delicadeza às avessas,
que corta a floresta de espinhos para ver a primavera,
o seu peito de toureiro, o seu preto e o seu vermelho,
eu amo você inteiro.
Amo te alisar feito um gato
forjar um frio exagerado
e te puxar pra baixo do meu cobertor.
Amo e amo viver de amor.
mas também com amor de mamífero, de cabra e tamanduá.
Te amo como os pássaros mergulhando no vento,
nas reticências escuras dos tempos,
antes de um eu existir -
com o eros pré-amoroso dos répteis e a fúria fria dos dinossauros
que perdem tempo se matando sem saber que o mundo vai explodir.
Te amo em eras glaciais,
em desastres naturais
e na areia da praia antes de você nascer.
Te amo como os peixes na substância comum das águas,
como os pólipos, os corais, as algas
com o amor que a esponja tem pelo mar
e as plantas pela atmosfera.
Te amo em todas as histórias
em cada éon e era,
com o contágio inevitável dos virus
e a matéria reunida de todas as bactérias.
Te amo no microscópio, meus elétrons e seus prótons.
Te amo cosmogonia,
Eros órfico, Big Bang:
O meu amor antigo é gritado
no chuvisco das tevês.
Te amo além dos limites da ciência
e dos sonhos que não são lembrados.
Te amo na minha pressão sanguínea
e na sua pele invadindo minhas células olfativas.
No buraco vazio do peito,
no saco cheio da vida,
na voz que sai da barriga.
Te amo na realidade da gente: sua delicadeza às avessas,
que corta a floresta de espinhos para ver a primavera,
o seu peito de toureiro, o seu preto e o seu vermelho,
eu amo você inteiro.
Amo te alisar feito um gato
forjar um frio exagerado
e te puxar pra baixo do meu cobertor.
Amo e amo viver de amor.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
terça-feira, 16 de novembro de 2010
uma poesia não escrita
as poesias que não fiz morreram incandescentes
ou se foram nas trocas de pele, virando poeira alérgica
- é que o tempo enterra as memórias por baixo das narrativas
como as ondas afundam os pés na praia das férias antigas
... e o pó que varremos de casa é feito da pele da gente
porque o tempo desgasta a derme e o fogo consome o verbo
e as poesias se perdem, mas novas podem ser feitas.
ou se foram nas trocas de pele, virando poeira alérgica
- é que o tempo enterra as memórias por baixo das narrativas
como as ondas afundam os pés na praia das férias antigas
... e o pó que varremos de casa é feito da pele da gente
porque o tempo desgasta a derme e o fogo consome o verbo
e as poesias se perdem, mas novas podem ser feitas.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Casa das três mulheres
Abrimos, eu e duas amigas, um blog a três vozes:
www.casadastresmulheres.blogspot.com
Publico lá às segundas.
www.casadastresmulheres.blogspot.com
Publico lá às segundas.
domingo, 14 de novembro de 2010
#$%#%¨$¨&
... um soco no peito e a alma estourou.
Afinal
(Alvares de Campos)
Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.
Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.
Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,
Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam
Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,
Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.
Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!
Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,
Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.
Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.
Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.
Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte ...
Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.
Dentro de mim estão presos e atados ao chao
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,
A chuva com pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.
Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!
Afinal
(Alvares de Campos)
Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.
Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.
Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,
Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam
Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,
Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.
Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!
Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,
Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.
Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.
Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.
Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte ...
Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.
Dentro de mim estão presos e atados ao chao
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,
A chuva com pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.
Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!
sábado, 13 de novembro de 2010
Into the wild
There is a pleasure in the pathless woods;
There is a rapture on the lonely shore;
There is society, where none intrudes,
By the deep sea, and music in its roar;
I love not man the less, but Nature more...
- Lord Byron
There is a rapture on the lonely shore;
There is society, where none intrudes,
By the deep sea, and music in its roar;
I love not man the less, but Nature more...
- Lord Byron
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Trinta e três
E quando relaxam-se os músculos tensos
que travam o intenso e apertam o ser?
E quando a respiração se expande em 3 D?
E quando se acorda do sonho, memórias no caleidoscópio?
O que berra o alpinista no pico do Taj Mahal?
- Não clama por uma escada, ingênua ambição vertical:
nota que o céu é o mesmo,
seja no vale ou na serra, visto da terra ou do sal,
e que o tempo é o rio nadando entre o vazio dos dedos
enquanto se apontam estrelas e se inventam constelações
(formas míticas, humanas, animais,
espelhos, paixões
e batsinais).
O que se grita de dentro é o silêncio de entranha,
definição solitária para o infinito momento:
berra-se o todo no agora - o verdadeiro, o Nirvana
o aleph de Borges,
os vinte e dois arcanos,
a pasárgada, o paraíso, shangrilah
o olimpo, terra prometida:
trinta e três anos.
que travam o intenso e apertam o ser?
E quando a respiração se expande em 3 D?
E quando se acorda do sonho, memórias no caleidoscópio?
O que berra o alpinista no pico do Taj Mahal?
- Não clama por uma escada, ingênua ambição vertical:
nota que o céu é o mesmo,
seja no vale ou na serra, visto da terra ou do sal,
e que o tempo é o rio nadando entre o vazio dos dedos
enquanto se apontam estrelas e se inventam constelações
(formas míticas, humanas, animais,
espelhos, paixões
e batsinais).
O que se grita de dentro é o silêncio de entranha,
definição solitária para o infinito momento:
berra-se o todo no agora - o verdadeiro, o Nirvana
o aleph de Borges,
os vinte e dois arcanos,
a pasárgada, o paraíso, shangrilah
o olimpo, terra prometida:
trinta e três anos.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Persona
Cansa-me atuar, não que não te queira
(e te quero
língua fome de terra)
mas a cabeça coroou a torre
e vivo no camarim suspenso em que olhos e ouvidos são janelas
e telescópios:
observatório panorâmico
de onde degusto a distância e as pessoas como estrelas do nunca,
constelações inofensivas e comodamente zodiacais.
Sei que corto a carne quando rasgo teu figurino
e meu faro inato e equivocado para o não-inato te perfura
quando confundo com maquiagem o pálido da tua derme.
É que não gosto de você porque você não é todo meu,
e te exijo real sob os meandros da carne:
não terra mas fogo e magma,
entranha profunda da pele.
... despir-te de teus escombros, que te vestem como máscaras;
expôr-te, trazer-te nu a ti mesmo e contar:
é isso que eu amo,
teu cerne.
(e te quero
língua fome de terra)
mas a cabeça coroou a torre
e vivo no camarim suspenso em que olhos e ouvidos são janelas
e telescópios:
observatório panorâmico
de onde degusto a distância e as pessoas como estrelas do nunca,
constelações inofensivas e comodamente zodiacais.
Sei que corto a carne quando rasgo teu figurino
e meu faro inato e equivocado para o não-inato te perfura
quando confundo com maquiagem o pálido da tua derme.
É que não gosto de você porque você não é todo meu,
e te exijo real sob os meandros da carne:
não terra mas fogo e magma,
entranha profunda da pele.
... despir-te de teus escombros, que te vestem como máscaras;
expôr-te, trazer-te nu a ti mesmo e contar:
é isso que eu amo,
teu cerne.
sobre a autenticidade
a janaína postou no face, dona da sincronicidade.
http://www.dalealplay.com/informaciondecontenido.php?con=12509
http://www.dalealplay.com/informaciondecontenido.php?con=12509
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
drão
Orpheus. Eurydice. Hermes.
(Rainer Maria Rilke, tradução não sei de quem)
That was the strange mine of souls.
As secret ores of silver they passed
like veins through its darkness. Between the roots
blood welled, flowing onwards to Mankind,
and it looked as hard as Porphyry in the darkness.
Otherwise nothing was red.
There were cliffs
and straggling woods. Bridges over voids,
and that great grey blind lake,
that hung above its distant floor
like a rain-filled sky above a landscape.
And between meadows, soft and full of patience,
one path, a pale strip, appeared,
passing by like a long bleached thing.
And down this path they came.
In front the slim man in the blue mantle,
mute and impatient, gazing before him.
His steps ate up the path in huge bites
without chewing: his hands hung,
clumsy and tight, from the falling folds,
and no longer aware of the weightless lyre,
grown into his left side,
like a rose-graft on an olive branch.
And his senses were as if divided:
while his sight ran ahead like a dog,
turned back, came and went again and again,
and waited at the next turn, positioned there -
his hearing was left behind like a scent.
Sometimes it seemed to him as if it reached
as far as the going of those other two,
who ought to be following this complete ascent.
Then once more it was only the repeated sound of his climb
and the breeze in his mantle behind him.
But he told himself that they were still coming:
said it aloud and heard it die away.
They were still coming, but they were two
fearfully light in their passage. If only he might
turn once more ( if looking back
were not the ruin of all his work,
that first had to be accomplished), then he must see them,
the quiet pair, mutely following him:
the god of errands and far messages,
the travelling-hood above his shining eyes,
the slender wand held out before his body,
the beating wings at his ankle joints;
and on his left hand, as entrusted: her.
The so-beloved, that out of one lyre
more grief came than from all grieving women:
so that a world of grief arose, in which
all things were there once more: forest and valley,
and road and village, field and stream and creature:
and that around this grief-world, just as
around the other earth, a sun
and a silent star-filled heaven turned,
a grief-heaven with distorted stars -
she was so-loved.
But she went at that god’s left hand,
her steps confined by the long grave-cloths,
uncertain, gentle, and without impatience.
She was in herself, like a woman near term,
and did not think of the man, going on ahead,
or the path, climbing upwards towards life.
She was in herself. And her being-dead
filled her with abundance.
As a fruit with sweetness and darkness,
so she was full with her vast death,
that was so new, she comprehended nothing.
She was in a new virginity
and untouchable: her sex was closed
like a young flower at twilight,
and her hands had been weaned so far
from marriage that even the slight god’s
endlessly gentle touch, as he led,
hurt her like too great an intimacy.
She was no longer that blonde woman,
sometimes touched on in the poet’s songs,
no longer the wide bed’s scent and island,
and that man’s possession no longer.
She was already loosened like long hair,
given out like fallen rain,
shared out like a hundredfold supply.
She was already root.
And when suddenly
the god stopped her and, with anguish in his cry,
uttered the words: ‘He has turned round’ -
she comprehended nothing and said softly: ‘Who?’
But far off, darkly before the bright exit,
stood someone or other, whose features
were unrecognisable. Who stood and saw
how on the strip of path between meadows,
with mournful look, the god of messages
turned, silently, to follow the figure
already walking back by that same path,
her steps confined by the long grave-cloths,
uncertain, gentle, and without impatience.
(Rainer Maria Rilke, tradução não sei de quem)
That was the strange mine of souls.
As secret ores of silver they passed
like veins through its darkness. Between the roots
blood welled, flowing onwards to Mankind,
and it looked as hard as Porphyry in the darkness.
Otherwise nothing was red.
There were cliffs
and straggling woods. Bridges over voids,
and that great grey blind lake,
that hung above its distant floor
like a rain-filled sky above a landscape.
And between meadows, soft and full of patience,
one path, a pale strip, appeared,
passing by like a long bleached thing.
And down this path they came.
In front the slim man in the blue mantle,
mute and impatient, gazing before him.
His steps ate up the path in huge bites
without chewing: his hands hung,
clumsy and tight, from the falling folds,
and no longer aware of the weightless lyre,
grown into his left side,
like a rose-graft on an olive branch.
And his senses were as if divided:
while his sight ran ahead like a dog,
turned back, came and went again and again,
and waited at the next turn, positioned there -
his hearing was left behind like a scent.
Sometimes it seemed to him as if it reached
as far as the going of those other two,
who ought to be following this complete ascent.
Then once more it was only the repeated sound of his climb
and the breeze in his mantle behind him.
But he told himself that they were still coming:
said it aloud and heard it die away.
They were still coming, but they were two
fearfully light in their passage. If only he might
turn once more ( if looking back
were not the ruin of all his work,
that first had to be accomplished), then he must see them,
the quiet pair, mutely following him:
the god of errands and far messages,
the travelling-hood above his shining eyes,
the slender wand held out before his body,
the beating wings at his ankle joints;
and on his left hand, as entrusted: her.
The so-beloved, that out of one lyre
more grief came than from all grieving women:
so that a world of grief arose, in which
all things were there once more: forest and valley,
and road and village, field and stream and creature:
and that around this grief-world, just as
around the other earth, a sun
and a silent star-filled heaven turned,
a grief-heaven with distorted stars -
she was so-loved.
But she went at that god’s left hand,
her steps confined by the long grave-cloths,
uncertain, gentle, and without impatience.
She was in herself, like a woman near term,
and did not think of the man, going on ahead,
or the path, climbing upwards towards life.
She was in herself. And her being-dead
filled her with abundance.
As a fruit with sweetness and darkness,
so she was full with her vast death,
that was so new, she comprehended nothing.
She was in a new virginity
and untouchable: her sex was closed
like a young flower at twilight,
and her hands had been weaned so far
from marriage that even the slight god’s
endlessly gentle touch, as he led,
hurt her like too great an intimacy.
She was no longer that blonde woman,
sometimes touched on in the poet’s songs,
no longer the wide bed’s scent and island,
and that man’s possession no longer.
She was already loosened like long hair,
given out like fallen rain,
shared out like a hundredfold supply.
She was already root.
And when suddenly
the god stopped her and, with anguish in his cry,
uttered the words: ‘He has turned round’ -
she comprehended nothing and said softly: ‘Who?’
But far off, darkly before the bright exit,
stood someone or other, whose features
were unrecognisable. Who stood and saw
how on the strip of path between meadows,
with mournful look, the god of messages
turned, silently, to follow the figure
already walking back by that same path,
her steps confined by the long grave-cloths,
uncertain, gentle, and without impatience.
terça-feira, 6 de abril de 2010
No hay banda
Porque o silêncio berrava,
afiei lâmina e língua
para apontar um lápis
de escrita.
Lasquei madeira em serragem
na busca de algum grafite -
lascas finas
frias
findas:
o lápis quieto sumindo
de espinha dorsal vazia.
(Nada a ser dito,
cochichou
o vácuo do grito.)
afiei lâmina e língua
para apontar um lápis
de escrita.
Lasquei madeira em serragem
na busca de algum grafite -
lascas finas
frias
findas:
o lápis quieto sumindo
de espinha dorsal vazia.
(Nada a ser dito,
cochichou
o vácuo do grito.)
terça-feira, 16 de março de 2010
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
mais do mesmo
"na praia de sídon, um touro tentava imitar gorgeios amorosos. foi sacudido por um arrepio, igual quando os moscardos o picavam. mas desta vez era um arrepio suave. eros fazia europa, donzela, montar em sua garupa. depois, o branco animal lançou-se n'água, e seu corpo imponente emergia o suficiente para que a jovem não se molhasse. foram vistos por muitos. tritão, com seu búzio sonoro, respondeu ao canto nupcial. trêmula, europa se mantinha agarrada a um dos longos chifres do touro. bóreas também os viu, enquanto cortavam as águas. malicioso e ciumento, assoviou à visão daqueles seios tenros que seu sopro descobria. atenas enrubeceu ao olhar do alto o pai cavalgado por uma mulher. um marinheiro aqueu também os viu e empalideceu. não seria tétis, curiosa de espiar o céu? ou então uma nereida que, para variar, estava vestida? ou será que poseidon, ardiloso, havia raptado outra moça?
entretanto, europa não vislumbrava o fim daquela furiosa navegação. mas imaginava sua sorte, quando regressassem à terra. e lançou uma mensagem ao vento e às águas: 'digam ao meu pai que europa deixou sua terra na garupa de um touro, meu raptor, meu marinheiro, meu - suponho - futuro companheiro de cama. entreguem, eu lhes imploro, este colar a minha mãe.' estava a ponto de invocar também bóreas, para que a erguesse com suas asas, como havia feito com a esposa, a ateniense oritia. porém, mordeu a língua: por que passar de um raptor a outro?"
(as núpcias de cadmo e harmonia, roberto calasso)
entretanto, europa não vislumbrava o fim daquela furiosa navegação. mas imaginava sua sorte, quando regressassem à terra. e lançou uma mensagem ao vento e às águas: 'digam ao meu pai que europa deixou sua terra na garupa de um touro, meu raptor, meu marinheiro, meu - suponho - futuro companheiro de cama. entreguem, eu lhes imploro, este colar a minha mãe.' estava a ponto de invocar também bóreas, para que a erguesse com suas asas, como havia feito com a esposa, a ateniense oritia. porém, mordeu a língua: por que passar de um raptor a outro?"
(as núpcias de cadmo e harmonia, roberto calasso)
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
... que demora, Melquíades.

"Pilar Ternera foi quem mais contribuiu para popularizar essa mistificação, quando concebeu o artifício de ler o passado nas cartas como antes tinha lido o futuro. Com esse recurso, os insones começaram a viver num mundo construído pelas alternativas incertas do baralho, onde o pai se lembrava de si apenas como o homem moreno que hava chegado no princípio de abril, e a mãe se lembrava de si apenas como a mulher trigueira que usava um anel de ouro na mão esquerda, e onde uma data de nascimento ficava reduzida à última quarta-feira em que cantou a calhandra no loureiro. Derrotado por aquelas práticas de consolação, José Arcadio Buendía decidiu então construir a máquina da memória, que uma vez tinha desejado para se lembrar dos maravilhosos inventos dos ciganos. A geringonça se fundamentava na possibilidade de repassar, todas as manhãs, e do princípio ao fim, a totalidade dos conhecimentos adquiridos na vida. Imaginava-a como um dicionário giratório que um indivíduo situado no eixo pudesse controlar com uma manivela, de modo que em poucas horas passassem diante dos seus olhos as noções mais necessárias para viver."
(G.G.Márquez, Cem Anos de Solidão)
domingo, 31 de janeiro de 2010
Fênix
ressaca de certeza esfarelada
retalhos de vontades desfiadas -
nus, nós, depois do terremoto
dançando de mãos dadas
alegres, no velório das palavras.
Fernandos Pessoas
"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância – irmãos siameses que não estão pegados."
(Fernando Pessoa/Bernardo Soares, O Livro do Desassossego.)
(Fernando Pessoa/Bernardo Soares, O Livro do Desassossego.)
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Estandarte
é
eu
sei
pensei
em tantas
formas e toda fórmula
possível de se imaginar. cheguei
até a trapacear o ritmo pela métrica,
respirar de um jeito desorgânico e me encaixar
num formato de mentira, culpando o mundo por isso.
mas um dia, parando de pensar, consegui me desenhar
fluida, estável, densa, sólida e de proporções
tão fáceis de se inventar
sem verso
medida
ritmo
com
passo
de quem quer andar.
eu
sei
pensei
em tantas
formas e toda fórmula
possível de se imaginar. cheguei
até a trapacear o ritmo pela métrica,
respirar de um jeito desorgânico e me encaixar
num formato de mentira, culpando o mundo por isso.
mas um dia, parando de pensar, consegui me desenhar
fluida, estável, densa, sólida e de proporções
tão fáceis de se inventar
sem verso
medida
ritmo
com
passo
de quem quer andar.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
The Poetry Hole
(retirado de http://wings.buffalo.edu/epc/ezines/we/we17.html)
People have poem holes in the tops of their heads. This comes as a surprise to many people.
If you close your mouth and hold your nostrils, and blow, you will feel the pressure against the tops of your heads.
In this way people are like whales.
Some times small sounds are emitted from these holes.
In most people, it is whimpering and sniddering--sounds that one would dare make only when alone and perhaps not even then; disturbing sounds, not representations but the sounds of the emotions themselves--the sound of loneliness, the sound of the fear of death, the sound of horniness....
The hole may also emit sounds when one is with a rambunctious crowd of happy people having fun, but they are quiet sounds and hard to hear.
Poets cultivate this pressure until the thin membrane covering the poem hole ruptures and begins to emit the high whining shounds of the self. These are poems. These learn to modulate the sounds, so they do close order drills, in perfect step, like a marching band or a troop of tap dancers.
Most people go to some lengths not to hear them: watch television, listen to loud music. Above all they interpret the sounds. If the poet writes I am happy happy happy, we know this is not true, and we have developed a large, well-paid class of professional critics whose task is to interpret the poets'
writings,so we will know that the letters in "happy, happy, happy" must be rearranged as ppphay, pppyahyah, ppphay, pppyahyah--the saddest and most sniddering syllables in the language.
Two parties have developed around this discovery: one believes that people have always had poetry holes; the other believes that they developed recently in human history, perhaps as recently as the 17th century.
I am inclined to think it has always been there. The report of poetry is consistent: people are miserable, their girl friends or boy friends are mean to them, they no sooner learn how to get along in life than they start becoming ugly and tired, then they die.
It is now known that the poetry hole can be closed with a simple surgical procedure. It has proven effective and permanent; it is highly recommended.
Don Byrd
People have poem holes in the tops of their heads. This comes as a surprise to many people.
If you close your mouth and hold your nostrils, and blow, you will feel the pressure against the tops of your heads.
In this way people are like whales.
Some times small sounds are emitted from these holes.
In most people, it is whimpering and sniddering--sounds that one would dare make only when alone and perhaps not even then; disturbing sounds, not representations but the sounds of the emotions themselves--the sound of loneliness, the sound of the fear of death, the sound of horniness....
The hole may also emit sounds when one is with a rambunctious crowd of happy people having fun, but they are quiet sounds and hard to hear.
Poets cultivate this pressure until the thin membrane covering the poem hole ruptures and begins to emit the high whining shounds of the self. These are poems. These learn to modulate the sounds, so they do close order drills, in perfect step, like a marching band or a troop of tap dancers.
Most people go to some lengths not to hear them: watch television, listen to loud music. Above all they interpret the sounds. If the poet writes I am happy happy happy, we know this is not true, and we have developed a large, well-paid class of professional critics whose task is to interpret the poets'
writings,so we will know that the letters in "happy, happy, happy" must be rearranged as ppphay, pppyahyah, ppphay, pppyahyah--the saddest and most sniddering syllables in the language.
Two parties have developed around this discovery: one believes that people have always had poetry holes; the other believes that they developed recently in human history, perhaps as recently as the 17th century.
I am inclined to think it has always been there. The report of poetry is consistent: people are miserable, their girl friends or boy friends are mean to them, they no sooner learn how to get along in life than they start becoming ugly and tired, then they die.
It is now known that the poetry hole can be closed with a simple surgical procedure. It has proven effective and permanent; it is highly recommended.
Don Byrd
domingo, 10 de janeiro de 2010
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Desórfã
Há um colo no fundo do copo
como o chão na terra do poço:
a mãe que se busca é o corpo,
carne moldada de estrela
truque que o mundo criou para se olhar por dentro.
Do barro, aceito o concreto
sabendo que aceitar é irrelevante como concordar com o sol
com minha natureza humana
ou com a forma como as coisas aconteceram.
Sei que vou morrer
e o tempo é só outro espaço de continuidade
onde o eu vira pó como o ponto, reticências.
Mas a ordem das coisas tem mil braços como uma deusa indiana
e caio da alma para ela mesma:
como o santo, saúdo a irmã vida e a irmã morte
e seu gêmeo branco, o sono,
e a cada manhã e ao lilás do fim do dia, na recém-noite para os olhos,
e às estrelas que só são para sempre na minha pequenina concepção humana.
... parar de berrar com o mundo e afinar o grito
à sinfonia de supercordas que vibram matéria.
Um dia a morte será a cura -
não hoje, e tudo bem quando amanhã.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Yin
talvez narrativas fiem vidas.
talvez eu não tenha sido como me contei,
talvez nunca serei.
talvez nem haja eu, só a tecelagem contínua
entre dois pólos
cujo projeto
que desconheço
pulsa-me a traçar teias de associações arbitrárias,
sentidos trans-lúcidos,
dissipáveis pelo toque da dúvida como bolhas de sabão.
por trás do véu, a natureza sem foco
a noite, as coisas que acontecem
sem sentido ou intenção:
aqui se faz um mundo,
outro ali, em outra oitava
... e o momento um acorde,
dedilhado em terças e sextas
e nem haja maestro.
talvez os homens das ciências sejam certos
e o nosso multiverso seja órfão.
talvez sejam mais loucos que os fanáticos da sé.
talvez seja só uma questão de abstração inútil e as coisas façam-se porque assim são feitas,
ou ao invés de aranhas sejamos primatas que descobriram o sentido ou a falta dele
e houve um alberto caeiro.
talvez nossa narrativa tenha enrijecido idéias,
platônicos discretos exilados na ponta do iceberg.
talvez apolo e dionísio fossem gêmeos e a virgem tenha nascido do oráculo.
talvez os hindus estejam certos e um deus me sonhe
ou tudo seja o espelho e o tigre que são o mesmo
como borges e tirésias, que alertaram para a escuridão.
talvez eu esteja errada, talvez eu creia.
teço um labirinto em que sei e outro em que queimam meus pecados
e outro em que sou louca ou nada.
sirvo a uma lenda que conta a natureza em mim,
a maior das minhas histórias e a inevitável e que talvez seja a poesia.
teci mundos olhando para os antigos, para os sonhos que me antecederam.
teci veias para me enterrar na placenta
e redes hídricas e vermelhas para me reunir em alguém que depois chamaram de um nome escandinavo.
talvez seja a verdade última, o naufrágio
e eu me derreta no oceano frio do mundo
como o gelo no copo
do uísque do meu pai.
talvez a vida me perpasse e desgaste as paredes dos meus poros, me levando em pó
para o deserto quente onde o tempo nasceu como naquele sonho desconexo,
e o tempo seja o deserto e o vento.
ah, dançar com o talvez da Dúvida,
a deusa voraz por epistemologia e altares pagãos como a noite pelo dia.
tolerar o calafrio do espelho na água da superfície e mergulhar no frescor não sabido,
em nem um pio das corujas que alerte os futuros.
o peso do infinito, matéria-prima do fio,
os deuses e a Certeza, outra deusa
enlouquecida em descrédito:
fiar-se com belos dedos, única âncora que há.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
domingo, 15 de novembro de 2009
Sobre a angústia
Antecipação anônima, ansiedade surda.
Nenhum dizer apreende, queda livre em aspereza, palavras-garras sem unha.
Onipotência ferida.
E de repente o mundo e o tempo não estão ao alcance, o vazio que repuxa, pontas dos dedos fisgando, a gengiva retraída. O não-saber transpirado, respiração bagunçada.
Travasse as mandíbulas e as apertasse até tudo se encolher, o crânio todo na boca, os dentes puxando o corpo.
Nem um trago que acalme, fumaça-onda que recrie um ritmo.
Nem um toque que seja um toque um toque e não um grito do que não há, do que sumiu de esperar. Angústia e dentes rangendo.
Escrever, compulsão, escrever como quem devora.
Nenhum dizer apreende, queda livre em aspereza, palavras-garras sem unha.
Onipotência ferida.
E de repente o mundo e o tempo não estão ao alcance, o vazio que repuxa, pontas dos dedos fisgando, a gengiva retraída. O não-saber transpirado, respiração bagunçada.
Travasse as mandíbulas e as apertasse até tudo se encolher, o crânio todo na boca, os dentes puxando o corpo.
Nem um trago que acalme, fumaça-onda que recrie um ritmo.
Nem um toque que seja um toque um toque e não um grito do que não há, do que sumiu de esperar. Angústia e dentes rangendo.
Escrever, compulsão, escrever como quem devora.
Borgeando II
"Eu sou o único homem sobre a Terra e talvez
não haja nem Terra nem homem.
Pode ser que um deus me engane.
Pode ser que um deus tenha me condenado ao tempo,
essa longa ilusão.
Eu sonho a lua e sonho meus olhos
que a percebem.
Sonhei a noite e a manhã do primeiro dia.
Sonhei Cartago e as legiões
que devastaram Cartago.
Sonhei Lucano.
Sonhei a colina do Gólgota
e as cruzes de Roma.
Sonhei a geometria,
Sonhei o ponto, a linha, o plano
e o volume.
Sonhei o amarelo, o vermelho e o azul.
Sonhei os mapas-múndi e os reinos
e o luto à aurora.
Sonhei a dor inconcebível.
Sonhei a dúvida e a certeza.
Sonhei o dia de ontem.
Mas talvez não tenha tido ontem,
talvez eu não tenha nascido.
Sonho, talvez, que sonhei"
(Jorge Luís Borges)
"Esse ofício do verso" me deu aquela nostalgia épica que só ele satisfaz. Aí o marido recomendou "A História do Judeu Errante", de Jean d'Ormesson.
Não consigo soltar! Fazia tempo que não lia uma coisa tão boa. Boooom, borgeanamente bom, ele é terrivelmente culto e tem aquela prosa que satisfaz a fome de outros tempos. Tinha que recomendar.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Outro aniversário

Todo ano ela me diz
dia onze de novembro:
te pari com sacrifício,
dezesseis horas de grito
tem mais é que ser feliz,
senão te recolho pra dentro.
Tem ano que eu nem me lembro
em alguns claustrofobia
em outros quero voltar -
descansar de respirar,
esperar até dezembro
ou nascer em nenhum dia.
Mas hoje eu que estou continente:
já sou mais mãe que bebê.
Quem sabe sem sacrifício
sem hora alguma de grito
me dê à luz permanente,
nasça sem me arrepender.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
adstringente
(para zoe amada, sempre grata pela sizígia, todas elas)
tirar o rímel dos olhos,
o muro da frente,
o cisco do olho.
aceitar a miopia,
recolher a córnea.
degustar o lugar em que não há
nada se vê
tudo é espera:
aqui vem uma ideia,
ali uma palavra,
sensações são relâmpagos.
abrir tímpanos para o som,
para o que vem de não sei onde.
aceitar o onde de que não se sabe.
escorregar no lombo da interrogação -
passividade não se ativa.
parar de fumar.
tragar o ar que já há,
sem arranhões por dentro:
abandonar o supérfluo,
as máquinas de sentir.
tirar o rímel dos olhos
tirar os olhos de si
ser imagem sem espelho
pintura sem tela e moldura.
tropeçar nas reticências,
pedras pulando no rio.
cair no rio, beber do rio,
a água que a sede pede,
comida que o corpo menciona.
saber-se folhagem e vento.
célula em plasma,
eu-no-mundo.
despedir-se das palavras
prometer que logo volta
dicionário renovado:
tirar o rímel dos olhos.
anti-clímax nesses videozinhos do youtube
precisa mesmo concretizar tanto assim uma letra de música?
precisa mesmo?
precisa?
precisa mesmo?
precisa?
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